Olhe para o lado positivo

5 de dezembro de 2018 | 1 semana atrás | Tempo de leitura: 9 minutos

Após séculos, a humanidade superou a fome, a peste e a guerra. Quem disse que não somos capazes de superar os desafios impostos por essa nova era?

por Lucas Netto e tradução por Mateus Oliveira

Mais um ano termina, deixando para trás perguntas sem respostas. A tecnologia roubará nossos empregos? Estamos prontos para os robôs? Será a próxima grande guerra, uma guerra cibernética? A privacidade desapareceu? Uma coisa é certa: todas essas questões carregam um sabor de medo e negatividade.

É nossa natureza nos concentrarmos no lado negativo das coisas. É o caminho mais fácil. Destruir é mais simples que construir. Os físicos descrevem-no como entropia, uma lei da termodinâmica que governa nosso universo, em que as mudanças em um sistema levam à desordem (em termos leigos). Rifkin, em seu livro clássico Entropia, apresenta uma tendência universal de todos os sistemas – incluindo econômico, social e ambiental – de passar de uma situação de ordem para uma crescente desordem.

Mas e o progresso que fizemos até aqui?

Eu sou otimista. Acredito que temos uma série de desafios pela frente (sempre teremos), mas olhemos o que realizamos. Do aumento da expectativa de vida a melhores condições de trabalho. De sistemas ineficientes a fazer mais com menos. O advento da tecnologia, muitas vezes recebe publicidade negativa e estou aqui para defender que devemos dar um passo atrás e olhar para o lado positivo.

No best-seller Homo Deus, Harari nos lembra que durante milhares de anos houve três coisas que ameaçavam os seres humanos: a fome, a peste e a guerra. Durante várias gerações, oramos aos nossos deuses, mas continuávamos morrendo de fome, epidemias e violência. Mas agora, em suas próprias palavras, “pela primeira vez na história, mais pessoas morrem hoje por comer demais do que por comer muito pouco; mais pessoas morrem de velhice do que de doenças infecciosas; e mais pessoas cometem suicídio do que são mortas por soldados, terroristas e criminosos”.

Fatos não mentem. “Em 2012, cerca de 56 milhões de pessoas morreram em todo o mundo; 620.000 delas morreram devido à violência humana (a guerra matou 120.000 pessoas e o crime matou outras 500.000). Em contraste, 800.000 cometeram suicídio e 1,5 milhão morreram de diabetes. O açúcar é agora mais perigoso que a pólvora. (…). Em 2010, a obesidade e doenças relacionadas mataram cerca de 3 milhões de pessoas, terroristas mataram um total de 7.697 pessoas em todo o mundo (…) para o americano ou europeu médio, a Coca-Cola representa uma ameaça muito mais mortal que a Al Qaeda.

Considero essas estatísticas incríveis. No século XX, os seres humanos conseguiram dobrar a expectativa de vida de 40 para 70 anos, e uma quantidade significativa de pesquisadores e estudiosos (incluindo o próprio Harari) acredita que deveríamos ser capazes de dobrá-la novamente para 150 no século XXI. Diagnósticos acontecem mais cedo e de maneira mais precisa do que nunca. Nano-robôs irão navegar nossas correntes sanguíneas identificando doenças, matando microrganismos nocivos e células cancerígenas. Vamos gradualmente fazer o nosso “upgrade”. Como o autor aponta, isso já está acontecendo hoje. Todos os dias damos aos smartphones mais controle sobre nossas vidas e tentamos um novo medicamento antidepressivo mais eficaz em busca de felicidade, saúde e poder.

As máquinas continuarão a fazer as coisas muito melhor do que nós e gradualmente serão integradas a nossas vidas e corpos. Podemos debater sobre os malefícios e dilemas éticos, mas a vantagem óbvia é que viveremos mais e perderemos muito menos tempo com trabalhos enfadonhos de escritório; seremos extremamente produtivos e teremos muito mais tempo para aproveitar a vida. Sim, isso trará enormes desafios. Mas assim como nós superamos a fome, a peste e a guerra, quem disse que não superaremos o desemprego em massa, os sistemas de previdência social falidos e os seres humanos aprimorados ou ”upgraded” (os nocivos, claro).

Com 2019 virando a esquina, não devemos fechar os olhos para os riscos e as implicações desta nova era, mas também nunca devemos esquecer as maravilhas da vida moderna. Como diz a canção: “O conselho é uma forma de nostalgia; compartilhar conselhos é um jeito de pescar o passado do lixo, esfregá-lo, repintar as partes feias e reciclar tudo por mais do que vale”. Então, seja bem-vindo 2019 com toda a inovação e melhoria de vida que nos trará. Basta olhar para o lado positivo.

 Check out the english version below:

LOOK AT THE BRIGHT SIDE

Humankind overcame famine, plague and war over centuries. Who says we aren’t capable of overcoming the challenges imposed by this new era?

by Lucas Netto

Another year is ending, leaving behind unanswered questions. Will technology take our jobs? Are we ready for the robots? Will the next big war, be a cyberwar? Is privacy gone? One thing is certain, all these questions carry a flavor of fear and negativity.

It is our nature to focus on the downside of things. It is the easier way out. Destroying is simpler than constructing. Physicists describe it as entropy, a law of thermodynamics that rules our universe, where changes to a system lead to disorder (in layman’s term). Rifkin, in his classic book Entropy, presents a universal tendency of all systems – including economic, social and environmental – to move from a situation of order to increasing disorder.

But what about all the progress we have made?

I am an optimist. I do believe we have a series of challenges ahead of us (we will always do) but look at what we have accomplished. From increasing life expectancy to better working conditions. From inefficient systems to making more with less. The advent of technology often gets bad publicity and I am here to advocate that we should step back and look at the bright side.

In the bestseller Homo Deus, Harari reminds us that for thousands of years there were three things that threatened human beings: famine, plague and war. For several generations we prayed to our gods but we kept on dying from starvation, epidemics and violence. But now, in his own words, “for the first time in history, more people die today from eating too much than from eating too little; more people die from old age than from infectious diseases; and more people commit suicide than are killed by soldiers, terrorists and criminals”.

Facts do not lie. “In 2012 about 56 million people died throughout the world; 620,000 of them died due to human violence (war killed 120,000 people, and crime killed another 500,000). In contrast, 800,000 committed suicide, and 1.5 million died of diabetes. Sugar is now more dangerous than gunpowder. (…) in 2010 obesity and related illnesses killed about 3 million people, terrorists killed a total of 7,697 people across the globe (…) for the average American or European, Coca-Cola poses a far deadlier threat than al-Qaeda.”

I just find these statistics mind-blowing. In the 20th century, humans were able to double life expectancy from 40 to 70 years, and a significant amount of researchers and scholars (including Harari himself) believe we should be able to double it again to 150 in the 21st century. Diagnostics will happen sooner and more accurate than ever. Nano-robots will navigate our bloodstream identifying illnesses, killing pathogens, and cancerous cells. We will gradually upgrade ourselves. As the author points out it is already happening today. Every day we give smartphones more control over our lives and we try a new more effective anti-depressant drug in pursuit of happiness, health and power.

Machines will continue to do things much better than we do and will gradually be integrated into our lives and bodies.  We can debate on the cons and ethical dilemmas but the obvious upside is that we will live more and lose a lot less time with inefficient office work; we will be extremely productive and have a lot more time to enjoy life.  Yes, this will pose enormous challenges. But just like we overcame famine, plague and war, who says we will not overcome mass unemployment, failed social security systems and upgraded human beings (the evil ones).

As 2018 goes around the corner, we should not close our eyes to the risks and implications of this new era but we should also never forget the wonders of modern life. As the song says: “Advice is a form of nostalgia; dispensing it is a way of fishing the past from the disposal, wiping it off; painting over the ugly parts and recycling it for more than it’s worth”. So welcome 2019 with all the innovation and life improvement it will bring us. Just look at the bright side.

 Lucas trabalha há mais de 15 anos na área de Suprimentos, Logística e Comércio Exterior. Hoje, em Bruxelas, está à frente da área de Supply Chain do Grupo Magotteaux,  líder mundial em soluções para indústrias extrativas.