Fake news e o marketing digital nas eleições de 2018

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26 de Abril de 2018 | 2 meses atrás

No último dia 24/04, tive a oportunidade de participar pela 3MW do fórum VEJA Amarelas, patrocinado pela FIA, cujo tema central foi: o impacto das fake news em nossas vidas. Ao final do evento, após refletir sobre as falas dos diversos palestrantes, o que mais me chamou atenção, no entanto, não foi o tema principal proposto pelo fórum, mas sim um outro que teimava em assumir posição central nas discussões — o cenário das eleições presidenciais de 2018.

O cenário vai se montando a cada palestra da seguinte maneira: figuras públicas como o Sr. Gilmar Mendes – ministro do STF – e o Sr. Luiz Fux – presidente do TSE, tentam se esquivar sem êxito das perguntas mais incisivas dos jornalistas sobre os conhecidos possíveis (ex) candidatos da política tradicional brasileira.

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(Foto: Antônio Milena/VEJA)

Jaime Durán Barba, consultor de marketing e assessor político da campanha de Maurício Macri na Argentina, defende que o valor dos candidatos está cada vez menos associado às propostas de governo, que em suas próprias palavras “serão lidas apenas pelos seus adversários e alguns jornalistas” e, como consequência, a mensagem transmitida pelo candidato deve buscar sempre ser generalista e sem maiores comprometimentos.

Jaime Durán Barba: “Deve-se fisgar o eleitor pela emoção e não pela razão”

Guillaume Liegey, que participou como estrategista de duas famosas e bem-sucedidas campanhas (a de Barack Obama em 2004 e de Emmanuel Macron em 2017), avalia que, assim como na França em seu período eleitoral, o Brasil está vivendo um momento de insatisfação geral com as instituições e busca candidatos que se apresentem como uma alternativa externa ao meio político. “Aconselho o candidato que quiser ganhar a se apresentar como uma alternativa à política tradicional”.

Fake news: a discussão vai muito além

Bia Granja explica sobre a cultura do compartilhamento em redes sociais, que gera um fenômeno em que a mensagem original é recebida pelo eleitor, processada de acordo com seus próprios valores e compartilhada com próximo e, neste processo, vai se decantando a cada compartilhamento, até que no final só reste o valor principal que será disseminado à exaustão até mesmo em forma de memes.

Neste momento do fórum, consigo antever com certa aflição como serão os próximos meses de campanha eleitoral: candidatos vazios, slogans bem feitos, mensagens simples marteladas à exaustão nas mídias on e off-line e a crescente polarização do público, que se inflama com ideais simples e são moldados à perfeição para serem aderentes aos seus próprios anseios.

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(Foto: Antônio Milena/VEJA)

As chamadas fake news naturalmente ficam em segundo plano, pois são apenas um de muitos sintomas que compõe o quadro maior. Qual será a solução?Estamos fadados a ingressar nesta corrente mundial de marketing político vazio?

E então, como se incluído próximo ao fim para facilitar nossa ida para casa e tirar um pouco do gosto amargo, o professor de Gestão de Políticas Públicas da USP Pablo Ortellado inicia sua palestra na qual expõe que realmente não existe solução que seja definitiva e democrática para resolver o problema. Porém, existem dois possíveis caminhos: podemos criminalizar a difusão e produção deste tipo de conteúdo, solução que concederia ao Estado o perigoso poder de arbitrar sobre as notícias, ou podemos optar pelo árduo caminho de implementar a transparência no uso das plataformas, a auto regulação e o contínuo investimento em educação para que possamos mitigar a propagação deste tipo de conteúdo pela população.

Sim, com certeza teremos que resistir bravamente à esta próxima eleição, na esperança que chegue o dia em que as plataformas digitais serão ferramentas de comparação de candidatos tão eficientes quanto de veiculação da propaganda política. Afinal, se o marketing já entendeu que pode se apropriar do meio digital para fazer política, eventualmente os usuários também entenderão.