Blockchain: vilão ou salvação?

Pulse

15 de Abril de 2018 | 3 meses atrás | Tempo de leitura: 3 minutos

Pressionado pela crise das ultimas notícias, Facebook e Google trabalham intensamente para corrigirem seus sistemas de inteligência artificial, com o intuito de combater a onda de fake news e o compartilhamento de informações pessoais.

O Google tem investido fortemente na evolução dos algoritmos de seu principal produto, a sua plataforma de busca – o objetivo é que às páginas consideradas mais confiáveis sejam evidenciadas, tornando menos visíveis os conteúdos de baixa credibilidade. E o Facebook, por sua vez, permitirá aos seus usuários que denunciem informações de caráter duvidoso.

A ultima eleição presidencial nos EUA suscitou uma discussão de proporções dantescas relacionadas a divulgação de notícias falsas, informações tendenciosas e a criação de bolhas, colocando em risco a unanimidade dos dois gigantes da internet. Toda esta polêmica foi favorecida pelo fato de que as redes sociais exibem na timeline de cada usuário o que seus algoritmos intuem que seja de interesse da pessoa, favorecendo notícias que muitas vezes confirmam a sua visão de mundo ao invés daquelas que questionam suas ideias, segundo adverte o relatório do projeto REIsearch, patrocinado pelo Atomium (Instituto Europeu para a Ciência, Meios de Comunicação e Democracia), que acaba de lançar uma grande pesquisa pública para questionar os europeus sobre este e outros impactos da nova geração de tecnologias da Internet.

Pesquisadores da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, fizeram testes de personalidade com pessoas que franquearam o acesso a suas páginas pessoais no Facebook, e estimaram, com ajuda de um algoritmo de computador, com quantas curtidas é possível detectar sua personalidade.

Com cem curtidas seria possível prever sua personalidade: orientação sexual, origem étnica, opinião religiosa e política, nível de inteligência, se usa substâncias que causam vício ou se tem pais separados. E os pesquisadores detectaram que com 150 curtidas o algoritmo podia prever sua personalidade melhor que seu companheiro. Com 250 curtidas, o algoritmo tem elementos para conhecer sua personalidade melhor do que você. Agora junte isso ao fato do Google e as operadoras de celular conhecerem a localização das pessoas graças aos sistemas do Google Maps e Gmail, instalados em seus smartphones.  O volume de dados que produzimos nos deixa cada vez mais expostos e previsíveis, o que torna o nosso futuro cada dia mais inquietante.

E diante de tanta inquietude, a blockchain – a tecnologia por trás de criptomoedas como a bitcoin – passa de suspeita à potencial solução. Não só de proteção aos dados, mas também como forma de compartilhá-los de maneira que o proprietário possa ainda manter o seu controle.

A tecnologia blockchain, também conhecida como cadeia de blocos, na sua essência é um sistema para o envio informações que permite a validação de um registro ou de uma transação sem a necessidade de um intermediário. Em blockchain não existe alteração dos dados e sim registro de transações. Para fraudar uma transação e registro, seria preciso alterar todos os blocos da blockchain, o que é matematicamente impossível.

E em razão disso, a blockchain passa a ser a alternativa viável para trazer mais segurança e transparência para transações na web, podendo ser incorporada em segmentos tão fragilizados pelas polemicas recentes como conteúdo e publicidade (em contraponto a crise de privacidade e confiabilidade que enfrentamos hoje). O potencial da tecnologia na publicidade tem relação direta com a falta de sigilo das informações, com as fraudes em marketing digital e a disseminação de noticias falsas.

Ao se usar os chamados contratos inteligentes em blockchain, o dono das informações pode facilmente ajustar quem tem acesso ao que, e as transações (e também o compartilhamento de dados) só são concluídas mediante consenso. Além disso, a tecnologia pode ajudar a estabelecer relações mais diretas e transparentes entre os players da indústria, facilitando as transações e pagamentos entre marcas e influenciadores ou produtores de conteúdo, com a adoção de protocolos previamente estabelecidos entre as partes. Outro forte apelo para a adoção da “cadeia de blocos” esta relacionada a tentativa de diminuir o impacto das fake news, sem necessariamente apelar para o caminho mais fácil da censura. A solução não passaria apenas pela qualidade das publicações, mas por atribuir a cada uma delas um token. É nesse ponto que entra a tecnologia da blockchain: um sistema de reputação poderia, de fato, acabar com a propagação de noticias irreais. A ideia seria criar maior transparência, conectando a blockchain às redes sociais e aplicativos de mensagens.

A tecnologia – e sobre tudo o uso dos dados – se tornaram o principal alicerce sobre o qual se constroem praticamente todas as principais dinâmicas relacionadas a economia, ao mercado financeiro, a vida cotidiana e até mesmo – pasmem (!) – o poder do Estado. E em função disto, nenhum relacionamento será genuíno se as redes sociais, buscadores e demais meios de conexão não estiverem sujeitos a fiscalização e controles que permitam uma maior transparência e, principalmente, confiabilidade. A tecnologia precisa cada vez mais convergir com o dia a dia da humanidade – trabalhando a nosso favor, e não contra.